sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A ilusão de uma economia verde

Por Lívia Modolo

Este artigo de Leonardo Boff nos faz refletir, entre outras tantas coisas, quão o mercado é flexível a ponto de se inserir mascarado em meio às questões ambientais para conseguir sobreviver.

Melhor dizendo, a imagem que as empresas fazem de seus produtos como "verdes" é a tentativa de descarregar o sentimento de culpa dos consumidores e assim continuar o tão esperado consumo excessivo.

Apesar das barreiras, Leonardo Boff continua propondo que mudemos nossos conceitos, nos conscientizando da "ilusão de uma economia verde" e nos inserindo dentro da natureza como humanos missionários iguais a todos os outros seres existentes, e mais ainda, dando amor e gratidão àquilo que chamamos erroneamente de nossa, mas da qual somos filhos, a Terra.

 

A ilusão de uma economia verde

16/10/2011
por Leonardo Boff
Tudo o que fizermos para proteger o planeta vivo que é a Terra contra fatores que a tiraram de seu equilíbrio e provocaram, em conseqüência, o aquecimento global é válido e deve ser apoiado. Na verdade, a expressão “aquecimento global”esconde fenômenos como: secas prolongadas que dizimam safras de grãos, grandes inundações e vendavais, falta de água, erosão dos solos, fome, degradação daqueles 15 entre os 24 serviços, elencados pela Avaliação Ecossistêmica da Terra (ONU), responsáveis pela sustentabilidade do planeta(água, energia, solos, sementes, fibras etc).
A questão central nem é salvar a Terra. Ela se salva a si mesma e, se for preciso, nos expulsando de seu seio. Mas como nos salvamos a nós mesmos e a nossa civilização? Esta é real questão que a maioria dá de ombros,especialmente os que tratam da macroeconomia.
A produção de baixo de carbono, os produtos orgânicos, energia solar e eólica, a diminuição, o mais possível, de intervenção nos ritmos da natureza, a busca da reposição dos bens utilizados, a reciclagem, tudo que vem sob o nome de economia verde são os processos mais buscados e difundidos. E é recomendável que esse modo de produzir se imponha.
Mesmo assim não devemos nos iludir e perder o sentido critico. Fala-se de economia verde para evitar a questão da sustentabilidade que se encontra em oposição ao atual modo de produção e consumo. Mas no fundo, trata-se de medidas dentro do mesmo paradigma de dominação da natureza. Não existe o verde e o não verde. Todos os produtos contem nas várias fases de sua produção, elementos tóxicos, danosos à saúde da Terra e da sociedade. Hoje pelo método da Análise do Ciclo de Vida podemos exibir e monitorar as complexas inter-relações entre as várias etapas, da extração, do transporte, da produção, do uso e do descarte de cada produto e seus impactos ambientais. Ai fica claro que o pretendido verde não é tão verde assim. O verde representa apenas uma etapa de todo um processo. A produção nunca é de todo ecoamigável.
Tomemos como exemplo o etanol, dado como energia limpa e alternativa à energia fóssil e suja do petróleo. Ele é limpo somente na boca da bomba de abastecimento. Todo o processo de sua produção é altamente poluidor: os agrotóxicos aplicados ao solo, as queimadas, o transporte com grandes caminhões que emitem gases, as emissões das fábricas, os efluentes líquidos e o bagaço. Os pesticidas eliminam bactérias e expulsam as minhocas que são fundamentais para a regeneração os solos; elas só voltam depois de cinco anos.
Para garantirmos uma produção, necessária à vida, que não estresse e degrade a natureza, precisamos mais do que a busca do verde. A crise é conceptual e não econômica. A relação para com a Terra tem que mudar. Somos parte de Gaia e por nossa atuação cuidadosa a tornamos mais consciente e com mais chance de assegurar sua vitalidade.
Para nos salvar não vejo outro caminho senão aquele apontado pela Carta da Terra:”o destino comum nos conclama a buscar um novo começo; isto requer uma mudança na mente e no coração; demanda um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal”(final).
Mudança de mente significa um novo conceito de Terra como Gaia. Ela não nos pertence, mas ao conjunto dos ecossistemas que servem à totalidade da vida, regulando sua base biofísica e os climas. Ela criou toda a comunidade de vida e não apenas nós. Nós somos sua porção consciente e responsável. O trabalho mais pesado é feito pelos nossos parceiros invisíveis, verdadeiro proletariado natural, os microorganismos, as bactérias e fungos que são bilhões em cada culherada de chão. São eles que sustentam efetivamente a vida já há 3,8 bilhões de anos. Nossa relação para com a Terra deve ser como aquela com nossas mães: de respeito e gratidão. Devemos devolver, agradecidos, o que ela nos dá e manter sua capacidade vital.
Mudança de coração significa que além da razão instrumental com a qual organizamos a produção, precisamos da razão cordial e sensível que se expressa pelo amor à Terra e pelo respeito a cada ser da criação porque é nosso companheiro na comunidade de vida e pelo sentimento de reciprocidade, de interdependência e de cuidado, pois essa é nossa missão.
Sem essa conversão não sairemos da miopia de uma economia verde.Só novas mentes e novos corações gestarão outro futuro.

Retirado de: http://leonardoboff.wordpress.com/2011/10/16/a-ilusao-de-uma-economia-verde/

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O RAP e o mundo

Por Alberto Kirilauskas

                O RAP é uma manifestação cultural cuja a sigla significa Ritmo e Poesia em inglês. O ritmo é marcado por batidas com seus compassos e tons e a poesia muitas vezes conta a realidade do local onde vivem as pessoas que escrevem as letras. Essa manifestação cultual ocorre comumente nas regiões periféricas das grandes cidades[1], mas não somente, há RAP’s sendo feitos em regiões que não estão inseridas em grandes centros.
                A batida é geralmente forte e bem marcada, onde muitos RAP’s inseriram no seu ritmo instrumentos eruditos como violino, piano, cello e outros, fazendo assim uma mistura que agrega à música. Essa marcação é que orienta os dizeres da poesia. A poesia além de contar a realidade do local sob a ótica dos que vivem dentro dela, também possui diversos elementos que são reflexões que extrapolam o local para ganhar dimensões maiores.
Compartilho o clip do SNJ - Pensamentos
                Trago aqui alguns trechos de RAP’s que considero bons e interessantes.
Falar sobre um conjunto tão grande geralmente ocorre de se negligenciar algo, porém aqui não objetivo falar sobre a história do RAP e sobre suas características musicais com seus compassos e tons, o objetivo central aqui é analisar algumas músicas.
                Numa sociedade tão ligada à imagem, ainda mais quando se trata de bebidas alcoólicas, SNJ na música Viajando na Balada diz:
“A imagem não é nada
vê se não se ilude
enquanto sobem com cachaça
eu subo com iacuti
                Vale aqui lembrar que essa música é do início da década passada, onde a homogenização da felicidade associada à bebida alcoólica não era tão intensa como atualmente. Não entrarei nesse mérito, pois ele é amplo e merece uma discussão com mais elementos.  Através desse pequeno trecho poderíamos entrar num diálogo sobre esses pontos levantados: imagem e bebida alcoólica.
                Um dos aspectos apresentados por muitos que criticam RAP é o conteúdo violento de suas letras. Aqui eu apresento dois trechos que dizem o contrário do que se pensa. O primeiro é o Racionais e o segundo do MV Bill.
“Falo do amor entre homem, filho e mulher
A única verdade universal que mantém a fé.” (Racionais – A vida é desafio)

“Eu faço apologia não do crime,
sim da paz.
Mas roupa branca sem pensar na maioria
pedir paz sem justiça é utopia.” (MV Bill – Só mais um maluco)

                Mesmo existindo a violência no cotidiano de muitas pessoas, ele é rejeitado em muitas letras. E ainda com essas críticas a violência ocorre mesmo entre os que escrevem as poesias. Essa fato não é tão difícil de caracterizá-lo, pois a construção da violência é um processo complexo que envolve educação, desigualdades sociais, questão psicológicas e outros fatores. E quando essa violência ocorre, desagrada aqueles que a criticam. Por exemplo, num áudio de um show do Racionais o Brown, um dos vocalistas,  parou o show porque estava ocorrendo uma briga na platéia e discursou sobre a desnecessidade de agir daquela forma. Aqui também apresento um trecho da música O Mensageiro do RZO que traz essa crítica à violência que ocorre entre esses artistas.
“vejo nos bailes RAP umas milhares de pessoas
não conquistamos o respeito ai, mas nem com festas boas
no meio do salão um tiroteio desacerto
um mano correndo com uma mina no colo eu já conheço é daquele jeito
e o movimento, que é o escudo dos pretos
atitude nesses trechos é ferrugem corroendo
me sinto magoado no estado de chato
isso pra mim tá claro de fato
o que eu fiz lutei foi fraco
os mano erraram entenderam o contrario” RZO – O Mensageiro
Para mim é claro a inserção do “tema” violência em muitos RAP’s, onde para compreender o motivo é necessário fazer uma análise crítica da sociedade brasileira, com suas mazelas e desigualdades. Todavia, como apresentado nalguns trechos acima, ela em muitas vezes é rejeitada.
Aqui, neste curto diálogo com o RAP, busquei desmistificar alguns aspectos que permeiam essa expressão cultural, porém esse não foi o objetivo central. O que me parece ser de grande relevância e merece um cuidado especial quando pensarmos nessas músicas é que essa é uma descrição da realidade, é o mundo vivido por muitos que está retratado nas poesias, e é o mundo não visto de fora, mas sim de dentro, e é aí que acredito ser a grande expressão dessa arte, e para muitos de nós que conhecemos tão pouco a realidade do país, das nossas cidades, ouvir RAP é uma forma de estar um pouco mais próximo das pessoas que também vivem nos grandes centros, pois, por exemplo, São Paulo não é somente a Av. Paulista e sua arquitetura e expressão artística da região central, ela é maior, é contraditória e viva nos bairros mais afastados dos olhos do que estão de passagem. Logicamente que há quem não gosta do estilo da música, e isso deve ser respeitado sempre, pois a diversidade deve ser preservada, porém como disse anteriormente, acredito que é possível, através de RAP (e outras expressões artísticas) estar menos distante, então, RAP não é só uma questão de gosto musical, também é uma vontade de enxergar um pouco melhor o mundo como ele é.  
Aqui também acredito caber uma crítica à apropriação desse estilo musical pelo mercado. Tal apropriação que ocorre (ao meu ver, raras vezes, pois esse não é o estilo que aceitado por grande parte dos brasileiros) acaba por descaracterizar a expressão, ela ganha formas de um mundo que parece não ser aquele que vive os poetas do RAP.
Já em linhas finais, compartilho um trecho da música dos Racionais que diz:
“Onde estiver, seja lá como for
tenha fé porque até no lixão nasce flor.” Racionais Vida Loka Part I
É com essa esperança que existe mesmo num mundo denso que encerro.


[1] Aqui cabe destacar que é necessário analisar com cuidado o que é denominado centro-periferia no mundo globalizado.